A Dança – O Insustentável Jeito de Ser na Bahia

O corpo como cartografia viva e dinâmica, faz-se registro e expressão da subjetividade para manifestar as coisas do mundo físico e do nosso mundo individual, da relação que criamos do nosso eu com a nossa cidade.

Esse inventário que configura o corpo humano, pleno de marcas experienciais se fará imbricado de uma estética pessoal e impessoal, ou seja, não mais pertencente ao mundo de um só individuo, mas a um coletivo de pessoas e de lugares que comungou com ele o seu conhecimento como vontade e representação.

Esse corpo agora marcado e construído de sintagmas, fragmentado pelo tempo e pelo espaço, com seus movimentos simétricos e assimétricos revelará uma dança – período pleno dos signos contidos e espalhados do lugar e da linguagem que agregou história à mecânica dessa matéria, o corpo.

Mas, e se esse corpo estiver assinalado por uma Bahia essencialista, locupleta de dengo, de uma fala sinuosa e preguiçosa, que só faz sambar, tomar banho de mar, viver nostalgias praieiras e pular atrás do elétrico – trio? Como desconstruir sem descaracterizar uma preta baiana que ao mesmo tempo é morena e se faz falsa por não saber sambar e nem cozinhar vatapá, “plasmando-se de um modo natural a figura do bom-baiano”?

Seria de fato essa “ficção étnica” e político-cultural que queremos difundir como identidade? Ou nem sequer espaço temos para desenhar um real registro de existência, diferente deste modelo de baianidade inventado e que convém economicamente para alguns poucos dominantes?

Teria a dança como forte característica de projeção da nossa cultura no papel que lhe cabe de transformar e educar o olhar através do corpo, cumprido a sua parte? Ou a dança que se dança na Bahia é tão insustentável na maneira de “Ser”, que sufoca com seus movimentos elementares outras formas de se dançar o mundo baiano?

Sabemos que os elementos que constituem a cultura de um povo são indissociáveis de seu jeito de delinear e pintar o universo. O problema é, como será feita essa aquarela, como serão postos os elementos no momento de sua composição? O que quero expor é o seguinte: não há problema nenhum na essência da nossa baianidade, no dengo que ela contém e que a “nêga tem”, na nossa trabalhosa preguiça praieira de abarcar e sambar o mundo.  Mas a forma como essas informações são veiculadas, isso sim, é uma aporia.

Sobre essa perspectiva hegemônica do conceito de “baianidade” Roberto Albergaria, comenta em seu artigo sobre “O mundo humano baiano como vontade e representação” que:

“Essa é a versão hegemônica, quase que oficial hoje… É o que aprendemos na escola é o que a mídia difunde em todos os nossos cada-vez-maiores-mais-animados-mais-pacificos-e-mais-rendosos Carnavais, é o que repetem os discursos em todas as nossas cada vez mais espetaculosas comemorações cívicas (História Monumental, sempre suscitando admiração e entusiasmo…)”.  (Albergaria, 2002)

Diante das considerações de Albergaria, nos perguntamos se é esta a fotografia que queremos que seja narrada e divulgada, sobre o nosso corpo, nossa intimidade, nosso jeito baiano de ter, receber e representar o mundo?

Entendemos que a discussão acerca da “baianidade” é demasiado complexa para que se esgote neste texto. Todavia, desejamos que ela seja traduzida em um formato mais próximo do real, mais próximo da natureza de nosso “ser baiano” sem que para isso seja deformada, homogeneizada e pateteada a nossa cultura.

O que nos leva nesse momento de originalidade peculiar a direcionar o olhar, agora já educado e sensibilizado pelo corpo, para a nossa vida e a questionarmos em que nível a arte pelo viés da dança e dos signos que se debruça á baianidade nos é familiar, em que formato e dimensão ela se encaixa e passeia pela linha que a vida nos traça?

Penso que a dança e todo o seu universo está em tudo que fazemos: no sair á rua, no tomar o ônibus, no gesticular e em todas as outras ações que compõe o nosso dia-a-dia, às vezes de maneira fragmentada, às vezes em impulsos tão ligados que os movimentos parecem terem sido ensaiados. Mas essa observação só pode ser aflorada e concebida quando o corpo vivencia essa experiência mais de perto, ou seja, tenha sido trabalhado no processo de criação tecnicamente, sem que com isso precise suprimir as nossas vivências, mesmo que pareçam estranhas a o próximo, pelo contrário esse é o “momento do encontro, do congraçamento, do encontro da confraternização” com o diferente, pois a dança nos faz olhar e sentir cada parte do nosso corpo que sofreu suas marcações e como o funcionar de uma memória esses acometimentos despontam, como que se fizessem querer ser lembrada em nós e para o mundo afirmando também ser parte desse processo, o que sugere um convite para á nossa maneira de dançar o Insustentável Jeito de Ser baiano sobre (parafraseando Focault) “as palavras e ás coisas” da Bahia. 

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