Arquivo para maio \22\UTC 2009

Fama: O que você faria, onde queria chegar?

Na Antiguidade a fama/mito nasce no contexto das guerras na busca do homem pela imortalidade através de ações que se aproximam de atos heróicos. Essa insatisfação do homem atravessou a história, mas é no século XX, nas décadas de 50/60, através da indústria cultural que o conceito de fama e suas manifestações vêm se especializar e dimensionar-se em grandes proporções.

Mas se na Antiguidade para ter o titulo de famoso e imortal bastava somente um gesto heróico, na Modernidade essas considerações são determinadas por outros posicionamentos, geralmente vinculados a sua atividade intelectual e postura política na sociedade.

É também nesse período que esse conceito começa a se diluir e agregar a sua composição outros fatores, não exigindo mais das celebridades grandes atos heróicos de humanidade e intelectualidade, bastando para o artista uma aparição em alguma grande Rede de TV ou ter a sua imagem associada a determinados produtos. 

Como grande contestador desse momento o artista plástico Andy Warhol, faz uma critica a essa produção em massa de mitos, utilizando imagens de (pseudo) artistas em suas obras, quando são soerguidos personagens que só duram 15 minutos. Momento crucial de uma problemática em um sistema que nos impõe (ainda que por osmose) a conhecer e participar da vida de determinadas pessoas que pouco ou nada nos acrescenta.

 São pessoas geralmente vazias que viram ali uma oportunidade de ascensão social.

Para ressaltar tal contestação convido para o diálogo à filósofa Olgária Matos que se coloca da seguinte forma em relação a o conceito de fama na contemporaneidade:

“Essas pessoas que emergem por alguns segundos não permanecem. O problema dessa banalização é que tudo acaba se equivalendo, você não tem mais critério”, diz Olgária. O desejo de sair do anonimato, mesmo que por uma razão deletéria, explica a sujeição a cenas vexaminosas. Aí se mistura a busca [1]pela fama com a busca pela recompensa material. “O grande ideal do mundo contemporâneo é uma palavra de ordem vazia: ganhar dinheiro.”

Motivo pelo qual estão alicerçados vidas de pessoas que desenvolveram a carreira artística como Gretchen, Tati Quebra-barraco e as mulheres frutas que agora tem pululado nas nossas casas. Como diz em sua matéria “A Síndrome da Fama” o jornalista Fabrício Machado:[2]

 “personagens destas “propostas” de vida, enxertadas pela deficiência de realidade, que causa uma ilusão coletiva de que tudo aquilo que se vê na tela é um exemplo a ser seguido”.

Esses personagens criados são tão insustentáveis que a engrenagem da máquina que eles alimentam, (a mídia) os descarta sem nenhum problema. Porque qualquer pessoa pode substituí-los. Como exemplo tem Grecthen, que ilustra perfeitamente nossas conversações, que nos anos 80, recebeu o título de “Rainha do Rebolado” e logo fora substituída recentemente por Carla Perez, talvez por trazer em seu inventário um rebolado, mas contemporâneo. E muitas outras Carla Perez, Mulher Melancia, Tati Quebra-barraco surgiu no mediático mercado cultural e como Gretchen sumirá, vão embora de repente como num passe de mágica.

* Sobre o nível de fama que quero alcançar:

* O Ministério dos Anônimos Adverte: FAMA é prejudicial à SAÙDE

*Palavra-chave: A carreira artística de Gretchen

                              Gretchen é a Rainha do Rebolado

                              De repente, num passe de mágica Gretchen vai embora

 

 


[1]Matéria Fama para Todos, assinada por SOUSA, Ana Paula

[2]Matéria A síndrome da Fama, MACHADO, Fabrício

 

*Matéria Gretchen, virou trash, ARAÙJO, Joana Carta Capital 30 de março de 2005,

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Nzinga de Matamba

“A Comida de Nzinga” é o quarto espetáculo da Companhia Axé do Theatro XVIII, a peça narra a história da destemida rainha Nzinga de Matamba que, entre os anos de 1624 e 1663, reinou sobre Ndongo e Matamba, atual região da República de Angola. O espetáculo mostra a força e inteligência de Nzinga, líder africana que assumiu as funções de diplomata – sabia falar português e pôde negociar diretamente com os colonizadores –, e estrategista militar, quebrando os padrões da época. Nascida numa sociedade patriarcal Nzinga dotada de habilidades traçadas num esboço comumente pertencente a o universo masculino, é impelida a agir politicamente tomando o lugar que outrora seria de seu irmão em favor de sua tribo. O espetáculo trás para o centro uma antiga discussão sobre gênero, poder e sexismo. Temas atualmente problematizados na sociedade por diversos meios de comunicação, sobretudo quando o panorama de dialogo é pelo olhar africano. O que faz nascer no espectador um desejo e uma curiosidade de ver esse tema ser abordado de uma maneira especial no momento em que as falas e o conhecer sobre África estão sendo cobradas nos variados meios das relações humanas.

Depois de muito se debruçar sobre a história primitiva da África, Aninha Franco e Marcos Dias nos presenteia com uma fotografia narrativa pouco vista discutida e mostrada sobre esse continente: A África que nos é revelada é de uma elegância e de uma altivez esteticamente impactante. E ver Nzinga brotar do corpo e do espírito de Clara Sales, personagem principal que nos revela a África pelo seu olhar é como voltar no tempo. E nessa viagem o espectador que acompanha a trajetória do grupo (CIA do XVIII), percebe a evolução técnica e dramática que alguns do grupo alcançaram em tão pouco tempo… E por falar em “TEMPO”, um dos trabalhos que mais marcou a história do grupo foi “IROCO”, com texto de João Sanches e Aninha Franco, o espetáculo exigiu um trabalho de corpo dos atores muito complexo. Pois o corpo assim como o tempo tinha que ser expresso vocalmente, cenicamente dentro desse inimigo implacável do homem: o tempo; mas… um tempo regido por Iroco. Porém porque cito e relaciono esse espetáculo em detrimento dos outros dois que compõe a história desse grupo? Qual a sua importância na vida desses jovens?

Sabemos que a companhia aborda na sua estética cênica e literárias histórias referentes à cultura afro-brasileira, mas o jeito de corpo desenrolado em “Iroco” se aproxima tanto do real quanto Nzinga na pele de Clara.

No processo de envelhecimento que é exigido pelo espetáculo, formado pelo corpo de jovens, nos afirma o quão dificultoso e por isso inesquecível e importante esse trabalho para o currículo e vida de cada adolescente que fez parte da montagem. Muito provável que o olhar deles hoje quando lançado para a velhice tem outra sensibilidade, pois o mesmo já sentiu na pele as suas dificuldades na preparação desses personagens, sem a o menos fazer parte desse tempo ainda. O que termina por unir, os dois espetáculos numa aura de nostalgia e saudade suscitando no público vontade de também representar. E é aí que entra o nosso olhar critico, quando saímos da condição de público e de contemplação, e queremos dirigir ou interpretar aquele ator que a gente percebe que ele não está tão bem na cena, que lhe falta autenticidade nos gestos e expressões. Momentos em que seu personagem se confunde com o seu interprete. Por uma má liberação de tonicidade e energia.

Em alguns momentos no espetáculo “A comida de Nzinga” isso é percebido por um espectador mais atento o que não tira a dinâmica da peça, que tem uma trilha maravilhosa, composta por Bira Reis, Monica Millet e André Rangel.

Cenário minimalista com objetos de cena que nos remete a um terreiro africano o que seria o mesmo do nosso brasileiro quintal. Figurinos esteticamente bem acabados de corte e caimento perfeitos. Porém para proposta do espetáculo há um empobrecimento no desenho de luz. O vermelho e o âmbar pouco aparecem e o espetáculo é marcado na maioria do tempo pelo amarelo o que faz com que em algumas cenas perca um pouco a vitalidade da personagem. Faço essa observação sabendo da importância das cores e que associada à palavra e o gesto, ela tem o poder de transformar a sua fotografia.

Outro aspecto que merece atenção é o lado esquerdo do cenário estar sem uma tapadeira para o ator se trocar e entrar em cena.

Existem momentos em que o espectador tem o seu olhar desviado de algumas cenas por conta do “bastidor improvisado”.

Essas observações consideradas aqui como falhas e sugestão de uma possível mudança podem levar em consideração já que se trata de um espetáculo com atores muito jovens neste mercado e até mesmo na área. Pessoas que estão se familiarizando agora com as diversas técnicas da dramaturgia e que tem dado o seu melhor para a construção de cada espetáculo. Que ainda tem um publico razoável para as dificuldades que o mercado cultural tem encontrado para se manter ativo. O que seria diferente se estivesse estampado na vitrine e nos meios de divulgação algum ator global ou com um bom apadrinhamento artístico. Com esses atributos “A comida de Nzinga” ou até mesmo Nzinga de Matamba para não ficar muito clichê, seria um estouro de bilheteria e sucesso. Mas são acessórios que não tiram a beleza e a mensagem do espetáculo.

 

Um Caminho Sinuoso revelado pelo Branco…

A imagem nos convida a adentrar, conhecê-la e desvelá-la e nela se deixar levar.

Imbricada de um branco natural, as montanhas levitam e faz tudo parecer harmonioso. Se não fosse o sinuoso caminho desenhado sobre á neve, juraríamos estar diante do Olimpo de tão etéreo que se faz a sua representação.

  1. Impregnado de uma atmosfera de paz, nos assegura que na sua peregrinação nada há de dar errado.

Mas, olhando essas linhas que se alargam e se fecham dando significado e perspectiva ao espaço; uma angustia sobressalta os olhos. Pergunto-me se é essa ausência de cor, essa morbidez que me extenua os nervos? È como se não existisse fim nesse caminho sinuoso revelado pelo branco e logo um ofuscamento quebra o divino ali apresentado.

E a leitura da imagem construída no primeiro momento que fora observada, ganha outra conotação, assumindo uma nova postura visual e sensitiva. A paz, a harmonia, o etéreo e o divino, cedem lugar, á morbidez, á angustia, ao real e ao comum.

  • Foto escolhida: “Alpi glen (switzerland) _ Csongor Boroczky”

Personagem: Severino, um artista plástico Pernambucano.

Conversa

 DEUS – O que passa com você Severino que vem passear nos Alpes Suíços? O sol do nordeste não tem lhe feito bem?

SEVERINO – Não consigo ver e nem sentir mais arte nas cores. Descobrir que estou sofrendo da síndrome de Van Gogh.

DEUS- Isso é péssimo! Mas e agora o que você vai fazer para encarar esse frio, essa falta de mundo?

SEVERINO – Vou me suicidar. Por isso, e para isso, vim até aqui. Precisava de um lugar assim… Essa ausência de cor e sons me fortalece. E não vim morrer por morrer. Deus farei deste ato á minha última criação.

Quando eu me matar, meu sangue escorrerá pelo gelo e ficará nele. Até o aquecimento da terra o derreter e espalhá-lo por todo o mundo, e parte de mim ressuscitará toda a natureza morta.

DEUS – Então você se considera um Jesus Cristo das artes?

SEVERINO – Não. Considero-me á própria ARTE.

                  (Ele põe á arma na cabeça)

DEUS- Não! Faça o seguinte: põe á arma no coração Severino… Porque arte é aura, é emoção. Diz-me agora, o que sentis com ela no peito?!

SEVERINO – Sinto êxtase, desejo, volição.

(e antes de morrer Severino pronuncia suas últimas palavras…)

“… Pai entrego na tua mão o meu espírito!”

Após dizer isso, um barulho seco ecoou por entre as montanhas e a neve que até então era uma tela em branco perdera sua inocência.

 

  1. SJonhaug, Ostfold (Norway) Snemann

… Um Caminho Sinuoso revelado Pelo Verde…

Pleno de sua própria cor a fotografia é de um verde espalhado e transbordado.

Marcado por linhas sinuosas e onduladas que faz ressaltar o relevo rico em frescor, sua textura lembra e nos remete a um imenso tapete que se estende por todo o território por ele alcançado, como se possuísse vida própria. Se não fosse o sinuoso caminho estriado por sob a grama, afirmaríamos estar diante da Entrada dum Suntuoso Jardim Secreto, tamanha serenidade contida na imagem.

È esse caminho de sinuosa e onduladas linhas que desencanta a ilustração e dar-se a conhecer, como quando um vinho se revela á um deus pagão. Penetrado de juventude, Pã, nos faz crer tranqüilidade nessa descoberta.

Porém, observando essas linhas que se concentram linearmente em espessura e dimensão estrategicamente calculada, uma solidão me dissipa o corpo. Pergunto-me, se é essa imensidão abarcada de bucolismo que me esvazia? É como se não fenecesse essa extensão sinuosa revelada pelo verde e logo á aversão abstraiu a alegria diáfana que habitava ali no jardim.

E a perturbadora realidade de ausência de verde fragiliza-me e se revela falso e sintético o ambiente do Secreto Jardim. Sem frescor, placidez, vida, virilidade. Abrem-se os olhos para dentro e veja-se imagem. 

  1. Kleinfedinberg, Burgenland (Áustria) Peter Busa

… Um Caminho Sinuoso revelado pelo Âmbar.

Um deus tocou nessas arvores… E de sua virtude brotou flores de fogo.

Um âmbar afugenta a sinuosidade das linhas que ferem a terra, que se perde em um verde senil e débil. A luz irradia um laranja-urucum dos pinhos, que se esticam enquanto a nuvem protege o verde que quase não há. O desenho que se tem é de uma estética impressionista pontilhada de agrupamentos e dimensões, peso e volume convergindo à fantasia e o onirismo a um mesmo lugar sem eliminar dele a realidade táctil e viva natural de seu ambiente.

Esse fogo que flameja e que não queima inquieta-me a alma. E penso estar louco de conhecimento e sabedoria. Teria Minerva me tocado a centelha da razão? Esse fogo não expira, e divulga um novo caminho sinuoso, agora revelado pelo âmbar e em seguida se instaura um caos levando consigo á objetividade e a subjetividade a uma voragem.

Entretanto, tem ainda um novo e sinuoso caminho revestido de loucura, que me liberta a volição soprando como um deus ás narinas o saber. É quando reinvento o mundo e diante dos meus olhos toda imagem passa a me conter – lá.

PS: Para a composição desse texto foi utilizado o livro:  “Ponto, Linha, Plano“, ora como “Ponto e Linha Sobre Plano“, o livro de Wassily Kandinsky originalmente se chama Punkt und Linie zu Fläche no original em alemão. O artista e teórico foi um dentre o primeiro grupo de “mestres” da Bauhaus. Ensinou nesta universidade de 1922 até seu fechamento em 1933, pelo regime nazista.

Ponto, Linha, Plano foi lançado pela primeira vez em 1926, em Munique. Fazia parte da coleção Bauhaus Bucher, dirigida pelo então diretor da instituição, Walter Gropius e por Lászlo Moholy-Nagy. Junto a Do Espiritual na Arte e Curso da Bauhaus foram a tríade das obras teóricas de Kandinsky.

Esta edição brasileira, da coleção arte&comunicação” da edições 70 foi lançada em… 1970. Além dos prefácios e da introdução, os capítulos são justamente estes três elementos fundamentais: ponto, linha e plano original. O apêndice traz 25 aplicações dos conceitos abordados no livro.

O excerto abaixo da apresentação por Philippe Sers, descreve bem a proposta de Kandisnky:

“O estudo, para Kandinsky, deve começar pelos elementos mais simples que são também os elementos necessários sem os quais nenhuma pintura é possível. […] Ponto-Linha-Plano é dedicado à análise de dois elementos fundamentais da forma: o ponto, elemento a partir do qual decorrem todas as outras formas, e a linha. O método aqui proposto consiste no estudo desses dois elementos primeiro em abstrato, sem suporte material, depois em relação com uma superfície material, ou seja, com o plano.”