Nzinga de Matamba

“A Comida de Nzinga” é o quarto espetáculo da Companhia Axé do Theatro XVIII, a peça narra a história da destemida rainha Nzinga de Matamba que, entre os anos de 1624 e 1663, reinou sobre Ndongo e Matamba, atual região da República de Angola. O espetáculo mostra a força e inteligência de Nzinga, líder africana que assumiu as funções de diplomata – sabia falar português e pôde negociar diretamente com os colonizadores –, e estrategista militar, quebrando os padrões da época. Nascida numa sociedade patriarcal Nzinga dotada de habilidades traçadas num esboço comumente pertencente a o universo masculino, é impelida a agir politicamente tomando o lugar que outrora seria de seu irmão em favor de sua tribo. O espetáculo trás para o centro uma antiga discussão sobre gênero, poder e sexismo. Temas atualmente problematizados na sociedade por diversos meios de comunicação, sobretudo quando o panorama de dialogo é pelo olhar africano. O que faz nascer no espectador um desejo e uma curiosidade de ver esse tema ser abordado de uma maneira especial no momento em que as falas e o conhecer sobre África estão sendo cobradas nos variados meios das relações humanas.

Depois de muito se debruçar sobre a história primitiva da África, Aninha Franco e Marcos Dias nos presenteia com uma fotografia narrativa pouco vista discutida e mostrada sobre esse continente: A África que nos é revelada é de uma elegância e de uma altivez esteticamente impactante. E ver Nzinga brotar do corpo e do espírito de Clara Sales, personagem principal que nos revela a África pelo seu olhar é como voltar no tempo. E nessa viagem o espectador que acompanha a trajetória do grupo (CIA do XVIII), percebe a evolução técnica e dramática que alguns do grupo alcançaram em tão pouco tempo… E por falar em “TEMPO”, um dos trabalhos que mais marcou a história do grupo foi “IROCO”, com texto de João Sanches e Aninha Franco, o espetáculo exigiu um trabalho de corpo dos atores muito complexo. Pois o corpo assim como o tempo tinha que ser expresso vocalmente, cenicamente dentro desse inimigo implacável do homem: o tempo; mas… um tempo regido por Iroco. Porém porque cito e relaciono esse espetáculo em detrimento dos outros dois que compõe a história desse grupo? Qual a sua importância na vida desses jovens?

Sabemos que a companhia aborda na sua estética cênica e literárias histórias referentes à cultura afro-brasileira, mas o jeito de corpo desenrolado em “Iroco” se aproxima tanto do real quanto Nzinga na pele de Clara.

No processo de envelhecimento que é exigido pelo espetáculo, formado pelo corpo de jovens, nos afirma o quão dificultoso e por isso inesquecível e importante esse trabalho para o currículo e vida de cada adolescente que fez parte da montagem. Muito provável que o olhar deles hoje quando lançado para a velhice tem outra sensibilidade, pois o mesmo já sentiu na pele as suas dificuldades na preparação desses personagens, sem a o menos fazer parte desse tempo ainda. O que termina por unir, os dois espetáculos numa aura de nostalgia e saudade suscitando no público vontade de também representar. E é aí que entra o nosso olhar critico, quando saímos da condição de público e de contemplação, e queremos dirigir ou interpretar aquele ator que a gente percebe que ele não está tão bem na cena, que lhe falta autenticidade nos gestos e expressões. Momentos em que seu personagem se confunde com o seu interprete. Por uma má liberação de tonicidade e energia.

Em alguns momentos no espetáculo “A comida de Nzinga” isso é percebido por um espectador mais atento o que não tira a dinâmica da peça, que tem uma trilha maravilhosa, composta por Bira Reis, Monica Millet e André Rangel.

Cenário minimalista com objetos de cena que nos remete a um terreiro africano o que seria o mesmo do nosso brasileiro quintal. Figurinos esteticamente bem acabados de corte e caimento perfeitos. Porém para proposta do espetáculo há um empobrecimento no desenho de luz. O vermelho e o âmbar pouco aparecem e o espetáculo é marcado na maioria do tempo pelo amarelo o que faz com que em algumas cenas perca um pouco a vitalidade da personagem. Faço essa observação sabendo da importância das cores e que associada à palavra e o gesto, ela tem o poder de transformar a sua fotografia.

Outro aspecto que merece atenção é o lado esquerdo do cenário estar sem uma tapadeira para o ator se trocar e entrar em cena.

Existem momentos em que o espectador tem o seu olhar desviado de algumas cenas por conta do “bastidor improvisado”.

Essas observações consideradas aqui como falhas e sugestão de uma possível mudança podem levar em consideração já que se trata de um espetáculo com atores muito jovens neste mercado e até mesmo na área. Pessoas que estão se familiarizando agora com as diversas técnicas da dramaturgia e que tem dado o seu melhor para a construção de cada espetáculo. Que ainda tem um publico razoável para as dificuldades que o mercado cultural tem encontrado para se manter ativo. O que seria diferente se estivesse estampado na vitrine e nos meios de divulgação algum ator global ou com um bom apadrinhamento artístico. Com esses atributos “A comida de Nzinga” ou até mesmo Nzinga de Matamba para não ficar muito clichê, seria um estouro de bilheteria e sucesso. Mas são acessórios que não tiram a beleza e a mensagem do espetáculo.

 

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