Um Caminho Sinuoso revelado pelo Branco…

A imagem nos convida a adentrar, conhecê-la e desvelá-la e nela se deixar levar.

Imbricada de um branco natural, as montanhas levitam e faz tudo parecer harmonioso. Se não fosse o sinuoso caminho desenhado sobre á neve, juraríamos estar diante do Olimpo de tão etéreo que se faz a sua representação.

  1. Impregnado de uma atmosfera de paz, nos assegura que na sua peregrinação nada há de dar errado.

Mas, olhando essas linhas que se alargam e se fecham dando significado e perspectiva ao espaço; uma angustia sobressalta os olhos. Pergunto-me se é essa ausência de cor, essa morbidez que me extenua os nervos? È como se não existisse fim nesse caminho sinuoso revelado pelo branco e logo um ofuscamento quebra o divino ali apresentado.

E a leitura da imagem construída no primeiro momento que fora observada, ganha outra conotação, assumindo uma nova postura visual e sensitiva. A paz, a harmonia, o etéreo e o divino, cedem lugar, á morbidez, á angustia, ao real e ao comum.

  • Foto escolhida: “Alpi glen (switzerland) _ Csongor Boroczky”

Personagem: Severino, um artista plástico Pernambucano.

Conversa

 DEUS – O que passa com você Severino que vem passear nos Alpes Suíços? O sol do nordeste não tem lhe feito bem?

SEVERINO – Não consigo ver e nem sentir mais arte nas cores. Descobrir que estou sofrendo da síndrome de Van Gogh.

DEUS- Isso é péssimo! Mas e agora o que você vai fazer para encarar esse frio, essa falta de mundo?

SEVERINO – Vou me suicidar. Por isso, e para isso, vim até aqui. Precisava de um lugar assim… Essa ausência de cor e sons me fortalece. E não vim morrer por morrer. Deus farei deste ato á minha última criação.

Quando eu me matar, meu sangue escorrerá pelo gelo e ficará nele. Até o aquecimento da terra o derreter e espalhá-lo por todo o mundo, e parte de mim ressuscitará toda a natureza morta.

DEUS – Então você se considera um Jesus Cristo das artes?

SEVERINO – Não. Considero-me á própria ARTE.

                  (Ele põe á arma na cabeça)

DEUS- Não! Faça o seguinte: põe á arma no coração Severino… Porque arte é aura, é emoção. Diz-me agora, o que sentis com ela no peito?!

SEVERINO – Sinto êxtase, desejo, volição.

(e antes de morrer Severino pronuncia suas últimas palavras…)

“… Pai entrego na tua mão o meu espírito!”

Após dizer isso, um barulho seco ecoou por entre as montanhas e a neve que até então era uma tela em branco perdera sua inocência.

 

  1. SJonhaug, Ostfold (Norway) Snemann

… Um Caminho Sinuoso revelado Pelo Verde…

Pleno de sua própria cor a fotografia é de um verde espalhado e transbordado.

Marcado por linhas sinuosas e onduladas que faz ressaltar o relevo rico em frescor, sua textura lembra e nos remete a um imenso tapete que se estende por todo o território por ele alcançado, como se possuísse vida própria. Se não fosse o sinuoso caminho estriado por sob a grama, afirmaríamos estar diante da Entrada dum Suntuoso Jardim Secreto, tamanha serenidade contida na imagem.

È esse caminho de sinuosa e onduladas linhas que desencanta a ilustração e dar-se a conhecer, como quando um vinho se revela á um deus pagão. Penetrado de juventude, Pã, nos faz crer tranqüilidade nessa descoberta.

Porém, observando essas linhas que se concentram linearmente em espessura e dimensão estrategicamente calculada, uma solidão me dissipa o corpo. Pergunto-me, se é essa imensidão abarcada de bucolismo que me esvazia? É como se não fenecesse essa extensão sinuosa revelada pelo verde e logo á aversão abstraiu a alegria diáfana que habitava ali no jardim.

E a perturbadora realidade de ausência de verde fragiliza-me e se revela falso e sintético o ambiente do Secreto Jardim. Sem frescor, placidez, vida, virilidade. Abrem-se os olhos para dentro e veja-se imagem. 

  1. Kleinfedinberg, Burgenland (Áustria) Peter Busa

… Um Caminho Sinuoso revelado pelo Âmbar.

Um deus tocou nessas arvores… E de sua virtude brotou flores de fogo.

Um âmbar afugenta a sinuosidade das linhas que ferem a terra, que se perde em um verde senil e débil. A luz irradia um laranja-urucum dos pinhos, que se esticam enquanto a nuvem protege o verde que quase não há. O desenho que se tem é de uma estética impressionista pontilhada de agrupamentos e dimensões, peso e volume convergindo à fantasia e o onirismo a um mesmo lugar sem eliminar dele a realidade táctil e viva natural de seu ambiente.

Esse fogo que flameja e que não queima inquieta-me a alma. E penso estar louco de conhecimento e sabedoria. Teria Minerva me tocado a centelha da razão? Esse fogo não expira, e divulga um novo caminho sinuoso, agora revelado pelo âmbar e em seguida se instaura um caos levando consigo á objetividade e a subjetividade a uma voragem.

Entretanto, tem ainda um novo e sinuoso caminho revestido de loucura, que me liberta a volição soprando como um deus ás narinas o saber. É quando reinvento o mundo e diante dos meus olhos toda imagem passa a me conter – lá.

PS: Para a composição desse texto foi utilizado o livro:  “Ponto, Linha, Plano“, ora como “Ponto e Linha Sobre Plano“, o livro de Wassily Kandinsky originalmente se chama Punkt und Linie zu Fläche no original em alemão. O artista e teórico foi um dentre o primeiro grupo de “mestres” da Bauhaus. Ensinou nesta universidade de 1922 até seu fechamento em 1933, pelo regime nazista.

Ponto, Linha, Plano foi lançado pela primeira vez em 1926, em Munique. Fazia parte da coleção Bauhaus Bucher, dirigida pelo então diretor da instituição, Walter Gropius e por Lászlo Moholy-Nagy. Junto a Do Espiritual na Arte e Curso da Bauhaus foram a tríade das obras teóricas de Kandinsky.

Esta edição brasileira, da coleção arte&comunicação” da edições 70 foi lançada em… 1970. Além dos prefácios e da introdução, os capítulos são justamente estes três elementos fundamentais: ponto, linha e plano original. O apêndice traz 25 aplicações dos conceitos abordados no livro.

O excerto abaixo da apresentação por Philippe Sers, descreve bem a proposta de Kandisnky:

“O estudo, para Kandinsky, deve começar pelos elementos mais simples que são também os elementos necessários sem os quais nenhuma pintura é possível. […] Ponto-Linha-Plano é dedicado à análise de dois elementos fundamentais da forma: o ponto, elemento a partir do qual decorrem todas as outras formas, e a linha. O método aqui proposto consiste no estudo desses dois elementos primeiro em abstrato, sem suporte material, depois em relação com uma superfície material, ou seja, com o plano.”

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